Instituições repudiam Transfobia no Prêmio Jabuti 2019

Direitos e Política

No ultimo dia 28/11, ocorreu a premiação do 61º Prêmio Jabuti, em São Paulo. Estávamos muito apreensivas, visto que a ANTRA, conjuntamente com outras instituições, encamparam exaustiva campanha contra a seleção do livro Transexualidade: O corpo entre o sujeito e a ciência, de Marco Antonio Coutinho Jorge e Natalia Pereira Travassos que havia sido indicado como finalista ao prêmio Jabuti 2019, na categoria Ciências.

Acreditamos que ele não deveria estar entre tantas obras importantes e que enfrentam questões de forma a banir abordagens prejudiciais ou mesmo limitadas a biologia ou que cause efeito patologizante contra determinada população, especialmente por se tratar de um livro que está listado na categoria ciência. Pois o livro reforça discursos que acabam por ratificar estigmas e perpetuar abordagens prejudiciais sobre a população trans, e que de forma incorreta, possuem efeitos prejudiciais para as pessoas trans.

Por melhores que possam parecer as intenções dos autores no desenvolvimento da pesquisa, as consequências desse trabalho são graves e por isso não merece ser homenageado com o prêmio Jabuti. Como afirmou a ativista transfeminista Beatriz Bagagli, ao analisar a referida obra, o que esses psicanalistas estão fazendo é reforçar uma perspectiva “tão prejudicial e estigmatizante para a população trans, pois oferece a legitimação do discurso de que os direitos trans estariam “indo longe demais” – quando na verdade não estaríamos nem no começo. Posicionamentos como desses dois psicanalistas conferem legitimidade a interpretações estigmatizantes sobre pessoas trans, algo muito distante da escuta atenta e ética defendida pela psicanálise”.

Todavia, é com surpresa que constatamos que o comitê optou por ignorar todos os argumentos apresentados de forma aprofundada no oficio enviado a equipe de curadoria e jurados, para utilizar um critério exclusivamente técnico, se isentando de qualquer responsabilidade sobre

Aceitar que uma publicação, finalista de um importante prêmio nacional, deve ser analisada unicamente por critérios técnicos – o que em nenhum momento é o objeto de nossa indagação – ignorando o seu teor violento e a disseminação de informações não comprovadas é um escárnio com a população trans brasileira.

A indicação e a possível premiação de uma obra tão nociva à existência e aos direitos das pessoas trans seria uma mácula na história do prêmio. Além disso, tem possíveis efeitos negativos bastante concretos. A formação de qualidade de profissionais de saúde para lidar com pessoas trans é uma condição necessária para a eficácia de alguns dos nossos direitos humanos básicos, como o acesso à saúde nas suas mais variadas formas.

A seleção e possível premiação desse livro ajuda a divulgar um material com uma perspectiva equivocada e pouco ética sobre a transexualidade, pode influenciar toda uma geração de profissionais de saúde que não irão atender corretamente pessoas trans, violando nosso direito fundamental à saúde, longe de estigmas ou da tutela médica.

Nos espanta que não haja um critério de adesão e respeito aos direitos humanos como requisito básico para que um livro siga na premiação. Bem como o cuidado para com qualquer outra possibilidade de violar preceito éticos, sociais e políticos. Convidamos o nobre conselho a uma breve reflexão: Como agiriam se um dos finalistas tratasse de forma irresponsável questões sobre o genocídio da população negra ou questões étnicos/raciais? Se o livro falasse de forma enviesada sobre violações dos direitos da mulheres ou de populações tradicionais? Se o livro buscasse distorcer as barbáries ocorridas durante o nazismo contra os judeus e outros grupos sociais? A resposta ainda seria a mesma?

Dessa maneira, repudiamos mais uma vez a seleção do livro Transexualidade: O corpo entre o sujeito e a ciência, de Marco Antonio Coutinho Jorge e Natalia Pereira Travassos como finalista ao prêmio Jabuti 2019, na categoria Ciências. Reiteramos nosso pedido para que a referida obra seja sumariamente desclassificada.

PREMIAÇÃO

O livro não foi premiado, e em muito se deve a organização e agilidade dos movimentos/pessoas, que se posicionaram e acionaram a curadoria do Prêmio, a fim de que a imagem do mesmo não fosse maculado por uma obra tão nociva e violenta contra as pessoas trans.  Estejamos atentas as outras movimentações como esta e nos colocamos sempre no campo de defesa de nossa população e da construção de novas narrativas que possam agregar conhecimento na luta contra a transfobia e contra abordagens problemáticas que ferem a nossa existência.

Constaram na articulação: Keila Simpson – Presidenta da ANTRA, Bruna Benevides – Secretária de Articulação Política da ANTRA, Beatriz Pagliarini, hiago Coacci, e Marco Aurélio Prado Máximo.

OFICIOS ENCAMINHADOS A CURADORIA E JURADOS DO PRÊMIO JABUTI

Oficio 065-2019 – Prêmio Jabuti

Resposta do Conselho Curador sobre critérios de seleção dos livros para o Prêmio Jabuti

Oficio-068-2019-Resposta-Prêmio-Jabuti

REFERENCIAS

https://transfeminismo.com/uma-resposta-a-marco-antonio-coutinho-jorge-e-natalia-pereira-travassos/

https://oglobo.globo.com/cultura/livro-sobre-desigualdade-o-grande-vencedor-do-jabuti-2019-24107755