ANTRA integra articulação nacional do movimento feminista para o 8 de março com mais de 300 organizações

Direitos e Política, Visibilidade
Representantes de organizações feministas entregam manifesto ao governo federal em mobilização nacional antes do 8 de Março. | Crédito: Marla Galdino/MMulheres

A construção das mobilizações do 8 de março de 2026 tem sido marcada por uma ampla articulação entre movimentos feministas, populares e sociais em todo o país. Entre as organizações que participam diretamente desse processo está a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), que integra a articulação nacional responsável por organizar as mobilizações do Dia Internacional de Luta das Mulheres e por consolidar um conjunto de propostas políticas apresentadas ao governo federal.

Desde o início do ano, organizações feministas, sindicais e movimentos sociais têm realizado reuniões semanais para estruturar uma agenda comum de reivindicações. O resultado desse processo foi a construção do manifesto “Pela vida das mulheres: contra o imperialismo, por democracia, soberania e pelo fim da escala 6×1”, documento que reúne mais de 300 assinaturas de entidades e movimentos e que foi entregue ao governo federal como parte das mobilizações políticas do 8 de março.

Entre as principais pautas apresentadas estão a redução da jornada de trabalho com o fim da escala 6×1, a ampliação do orçamento para políticas públicas voltadas às mulheres, o fortalecimento do Plano Nacional de Cuidados, políticas de enfrentamento à violência de gênero e medidas estruturais para enfrentar desigualdades econômicas, raciais e territoriais. O documento também reivindica a ampliação de equipamentos de atendimento às mulheres em situação de violência, a criação de um fundo emergencial para essas políticas e o fortalecimento de campanhas de prevenção em todo o país.

Outro eixo central da agenda envolve a defesa da justiça reprodutiva e do acesso ao aborto legal nos casos previstos em lei, bem como o fortalecimento das políticas de saúde integral para mulheres e pessoas que gestam. O manifesto também destaca a necessidade de combater o racismo estrutural, a violência policial e as desigualdades que atingem especialmente mulheres negras, indígenas e periféricas.

A agenda inclui ainda temas como justiça climática, soberania alimentar, defesa dos territórios e fortalecimento da agroecologia, além da defesa da democracia diante do avanço de forças conservadoras e da extrema direita no Brasil e no mundo. Nesse contexto, os movimentos ressaltam a importância de políticas públicas estruturais capazes de garantir o bem viver das mulheres em toda a sua diversidade.

Para a ANTRA, a presença de travestis e mulheres trans nesse processo de articulação nacional representa um avanço político importante dentro do movimento feminista. A participação da entidade contribui para inserir de forma mais consistente na agenda feminista pautas como o enfrentamento ao transfeminicídio, a garantia de acesso à saúde integral para pessoas trans, a inclusão no mercado de trabalho e o combate à violência institucional que atinge essa população.

A presença trans na construção dessas agendas também reforça a compreensão de que as violências de gênero se manifestam de forma interligada e que o enfrentamento ao patriarcado exige uma perspectiva que considere as múltiplas desigualdades que atravessam os corpos e as vidas das mulheres. Nesse sentido, a articulação entre movimentos feministas, negros, populares e LGBTQIA+ fortalece a capacidade de incidência política e amplia o alcance das reivindicações.

A mobilização também tem produzido efeitos concretos na arena institucional. Como parte dessa articulação, representantes dos movimentos feministas entregaram ao governo federal o manifesto com as propostas consolidadas e iniciaram um diálogo direto com o Ministério das Mulheres e a Secretaria-Geral da Presidência da República para discutir a incorporação dessas pautas em políticas públicas e no planejamento de um novo Plano Nacional de Políticas para as Mulheres.

Movimentos se reuniram para debater bandeiras de luta, no ministério das mulheres, junto da ministra Marcia Lopes. | Crédito: Marla Galdino/MMulheres
Com a entrega do manifesto, as organizações feministas esperam ampliar o debate público sobre as políticas necessárias para garantir direitos e reduzir desigualdades de gênero no Brasil. As mobilizações previstas para o 8 de março devem reforçar essa agenda nas ruas e pressionar o poder público a responder às reivindicações apresentadas.

Para as organizações envolvidas, o processo de construção coletiva das mobilizações do 8 de março demonstra a força da unidade entre diferentes movimentos sociais. Ao reunir mulheres cis, trans e travestis em torno de uma agenda comum, a articulação reafirma que a luta feminista se fortalece quando reconhece a diversidade de experiências e amplia sua capacidade de enfrentar as múltiplas formas de violência, desigualdade e exclusão presentes na sociedade brasileira.

O Manifesto final pode ser baixado a seguir:

Documentário Xicas participa de Festival de Curtas de Clermont-Ferrand e reforça protagonismo trans no cinema internacional

Cultura, Direitos e Política, Visibilidade

A produção audiovisual brasileira volta a ganhar destaque no cenário internacional com a participação de curtas-metragens nacionais no Festival Internacional de Curtas-Metragens de Clermont-Ferrand, na França, um dos mais importantes eventos do mundo dedicados ao formato. O festival, realizado entre os dias 30 de janeiro e 7 de fevereiro, reuniu cineastas, distribuidores e curadores de diversos países, celebrando a diversidade criativa e a força das narrativas brasileiras na cena global.  

Entre as obras selecionadas para o programa Brazilian Shorts from São Paulo está Xicas, dirigido por Asaph Luccas e co-roteirizado por Hela Santana. O documentário poético acompanha a presença das travestis no desfile da escola de samba Paraíso do Tuiuti em 2025, cujo enredo homenageou Xica Manicongo, figura histórica reconhecida como a primeira travesti não indígena do Brasil. Ao transitar entre passado, presente e futuro, a obra revela uma revolução travesti em plena avenida e articula narrativas de resistência, corpo e memória. A produção celebra a trajetória histórica das travestis brasileiras na luta por respeito e liberdade, tomando Xica Manicongo como eixo simbólico desse percurso, no enredo desenvolvido por Jack Vasconcelos.

A participação de Xicas no festival representa uma conquista significativa para a ANTRA, que realiza a produção do documentário, que tem investido na produção de memória e ampliação de vozes trans no audiovisual brasileiro. A presença do documentário no segundo maior festival do mundo reforça não apenas o talento da comunidade trans na produção cultural, mas também a importância de colocar narrativas que rompem estereótipos no centro das discussões internacionais.

Para a presidenta da ANTRA, a visibilidade de Xicas em Clermont-Ferrand é um marco político e cultural. “Ver nossa produção representando o Brasil em um dos principais festivais de curtas-metragens do mundo é motivo de orgulho e reafirmação de que as histórias trans merecem espaço e reconhecimento – não apenas dentro do país, mas também no cenário global. Xicas é uma obra que carrega identidade, luta e ancestralidade, e sua exibição internacional amplia o alcance dessas experiências”, afirmou.

O Festival de Clermont-Ferrand é reconhecido por sua abrangência e importância no circuito cinematográfico, atraindo milhares de profissionais e títulos de todos os continentes. A seleção de curtas brasileiros, entre eles Xicas, reflete a vitalidade e diversidade da produção audiovisual nacional, que dialoga com temas sociais, culturais e políticos contemporâneos.

Além de Xicas, a programação brasileira inclui outras obras que exploram diferentes perspectivas e linguagens cinematográficas, reforçando a presença plural do Brasil no evento. A participação no festival também abre oportunidades de intercâmbio, formação e fortalecimento de redes entre cineastas brasileiros e interlocutores internacionais.

A ANTRA celebra essa conquista como mais um passo na luta por representações autênticas e pelo reconhecimento da potência criativa de travestis e pessoas trans no campo audiovisual. Ao projetar Xicas no exterior, a entidade contribui para ampliar narrativas que desconstroem preconceitos e revelam trajetórias de resistência, memória e identidade. Em breve o filme será lançado oficialmente no circuito nacional.