ANTRA alerta para perfis falsos criados por IA que simulam pessoas trans nas redes sociais

Direitos e Política, Notas e Ofícios, Visibilidade

A ANTRA manifesta preocupação com o crescimento de perfis produzidos por inteligência artificial que simulam pessoas trans – emulando predominante mulheres trans, nas redes sociais e plataformas digitais. Embora o avanço tecnológico faça parte das transformações contemporâneas da comunicação, é preciso refletir com responsabilidade sobre os impactos políticos, éticos e sociais da criação de identidades artificiais que reproduzem imagens, narrativas, experiências e corporalidades trans sem qualquer compromisso com a realidade vivida por nossa população.

Ao longo de 2026, identificamos através de nossas pesquisas, esse tipo de perfil passou a ganhar maior alcance, sofisticação e circulação em diferentes plataformas, muitas vezes utilizando linguagens, estéticas e formatos cuidadosamente construídos para parecerem autênticos. Esse crescimento não pode ser tratado como um fenômeno neutro ou meramente tecnológico. Em um cenário marcado pela disputa de narrativas, pela ampliação da desinformação digital e pela reorganização internacional de grupos antigênero, a proliferação dessas contas, muitas delas com selo de verificação, possui forte potencial de confundir o debate público, diluir denúncias reais, produzir desmobilização política e enfraquecer a capacidade coletiva de organização da comunidade trans.

A existência desses perfis levanta preocupações importantes sobre desinformação, distorção do debate público e instrumentalização da imagem de pessoas trans. Em um contexto marcado pelo aumento da violência política, da transfobia digital e da circulação coordenada de discursos antigênero, não podemos ignorar os riscos de que personagens artificiais sejam utilizados para produzir narrativas artificiais, simplificadas ou desconectadas das experiências concretas da nossa comunidade. Esse tipo de conteúdo pode contribuir para leituras superficiais e descontextualizadas sobre a vida de pessoas trans, enfraquecendo a dimensão política das nossas existências e das reivindicações históricas por dignidade, cidadania e proteção de direitos.

Também é necessário refletir sobre os impactos simbólicos, políticos e econômicos dessa prática. Pessoas trans historicamente enfrentam exclusão do mercado de trabalho, invisibilização social e barreiras de acesso à espaços de representação. A substituição de vozes reais por perfis artificiais produzidos para engajamento, monetização ou exploração estética pode aprofundar processos de apagamento, retirando espaço, renda, visibilidade e legitimidade de criadores, influenciadores, artistas e ativistas trans que constroem suas trajetórias em meio a profundas desigualdades estruturais.

Além disso, a reprodução de estéticas e discursos dissociados das vivências e experiências reais da população trans pode alimentar percepções equivocadas e potencialmente nocivas sobre quem somos e sobre as violências que enfrentamos. Em muitos casos, essas contas operam reproduzindo padrões estéticos idealizados, hiperperformáticos e pouco conectados à diversidade concreta das vivências trans, reforçando estereótipos de gênero, racismo, misoginia, caricaturas femininas e expectativas irreais sobre corpos e comportamentos.

Há ainda situações fabricadas artificialmente para gerar polêmica, engajamento e reação emocional nas redes, muitas vezes explorando temas sensíveis de maneira descontextualizada. Esse tipo de dinâmica desloca o foco do debate público e desvia a atenção das discussões urgentes sobre violência, exclusão social, acesso à direitos e necessidade de proteção efetiva para mulheres trans.

Outro ponto de atenção envolve a ausência de transparência em muitos desses conteúdos. Em diversos casos, usuários não conseguem identificar de maneira imediata que se trata de personagens artificiais, o que compromete a confiança pública, dificulta a responsabilização sobre conteúdos disseminados e amplia o potencial de manipulação emocional e política. Isso se torna ainda mais grave quando essas identidades simuladas passam a comentar temas sociais sensíveis, emitir opiniões políticas ou reproduzir experiências de violência e discriminação como se fossem pessoas reais.

A ANTRA entende que esse fenômeno precisa ser tratado com máxima responsabilidade pelas plataformas digitais, autoridades públicas e organismos de proteção de direitos. Não se trata apenas de entretenimento ou experimentação tecnológica. Trata-se de um ambiente suscetível à manipulação social, à fabricação artificial de consenso e à exploração política da imagem de grupos vulnerabilizados.

Diante da gravidade da situação, a ANTRA informa que irá protocolar representação junto ao Ministério Público Federal solicitando investigação aprofundada sobre a proliferação desses perfis, suas possíveis conexões políticas, econômicas e ideológicas, bem como os impactos produzidos sobre a população trans e sobre o debate público brasileiro. Também defenderemos que plataformas digitais adotem medidas imediatas para identificação, restrição e retirada de perfis dessa natureza quando houver simulação enganosa de identidades humanas ou instrumentalização da imagem de pessoas trans.

Alertamos a comunidade trans, pessoas aliadas, pesquisadores, imprensa e tomadores de decisão para que estejam atentos a esse tipo de estratégia, seus interesses e seus potenciais efeitos na ampliação da desinformação, da transfobia digital e da manipulação política contra nossa comunidade. Reforçamos ainda a importância de que esses perfis não sejam normalizados, impulsionados ou consumidos sem reflexão crítica. Conteúdos dessa natureza devem ser denunciados às plataformas e analisados com responsabilidade, especialmente quando houver tentativa de simular experiências trans reais, influenciar debates públicos ou explorar politicamente a imagem da nossa população.

Traviarcas: pesquisa nacional sobre envelhecimento trans é retomada e ampliada para todo o Brasil

Cultura, Pesquisas, Visibilidade
Tiana, a travesti mais velha do Brasil

ANTRA – Brasil, 26 de abril de 2026.

A ANTRA retoma, em 2026, uma das iniciativas mais inovadoras e urgentes já construídas no Brasil sobre envelhecimento trans. Após um período de suspensão provocado por cortes no financiamento, a pesquisa nacional “TRAVIARCAS: Diagnóstico sobre os desafios para o envelhecimento de travestis e mulheres transexuais brasileiras volta a campo com ainda mais força, abrangência e articulação institucional. A partir de julho deste ano, a coleta de dados será ampliada para todo o território nacional, em uma parceria estratégica entre a ANTRA, o NUH/UFMG e a Secretaria Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa. As adesões online seguem abertas, e o relatório final tem lançamento previsto para dezembro de 2026 em Seminário Inédito sobre o tema.

Lançada originalmente em 2024, a pesquisa nasceu para enfrentar uma das maiores lacunas na produção de conhecimento sobre a população trans brasileira: a quase completa ausência de dados sobre envelhecimento. Em um país que ainda convive com baixíssimas estimativas de expectativa de vida para travestis e pessoas trans, pensar quem envelhece, como envelhece e em quais condições é uma tarefa política, ética e civilizatória. Afinal, envelhecer, para a nossa população, ainda é um privilégio negado a muitas.

A pesquisa busca mapear as condições de vida, saúde, renda, vínculos familiares, acesso a políticas públicas, moradia, trabalho, redes de cuidado e perspectivas de futuro de pessoas trans com 50 anos ou mais. Trata-se de uma investigação inédita em escala nacional, que permitirá compreender desafios específicos, identificar desigualdades históricas e subsidiar a formulação de políticas públicas adequadas às demandas dessa população.

Seu caráter pioneiro reforça o papel histórico da ANTRA na produção de conhecimento e na incidência política. Ao colocar o envelhecimento trans no centro do debate público, a entidade inaugura uma agenda fundamental para o movimento social brasileiro. Não por acaso, foi também a ANTRA quem realizou a primeira Conferência Livre Nacional de Pessoas Trans Idosas, consolidando um espaço próprio de escuta, formulação e participação política para uma geração que, por muito tempo, permaneceu invisibilizada.

Os impactos esperados são profundos. Os resultados da pesquisa poderão orientar políticas intersetoriais nas áreas de saúde, assistência social, previdência, moradia, segurança e direitos humanos. Mais do que produzir estatísticas, o estudo pretende afirmar a existência, a dignidade e o direito ao futuro de travestis e pessoas trans em todas as fases da vida.

Falar sobre envelhecimento trans é falar sobre sobrevivência, reparação e justiça social. É reconhecer trajetórias marcadas por exclusão, mas também por resistência, reinvenção e construção coletiva. É enfrentar a lógica que historicamente naturalizou a morte precoce de nossa população e afirmar, com contundência, que pessoas trans têm direito não apenas a viver, mas a envelhecer com dignidade, autonomia e proteção.

Homenagens especiais

Além das pessoas que responderão os questionários, a pesquisa trará uma seção especial com alguns perfis de ativistas que dedicam suas vidas a luta por um mundo melhor. Dentre elas está Tiana Cardeal, 93 anos que recebeu a equipe de pesquisa da ANTRA em sua residência para uma conversa.

Tiana é reconhecida como a travesti negra mais idosa do Brasil, sua trajetória desafia estatísticas marcadas pela violência e pela exclusão, afirmando, com a força de sua existência, que envelhecer também é um direito da população trans. Moradora de Governador Valadares, em Minas Gerais, Tiana construiu uma vida atravessada pela coragem, pela fé e pela persistência. Sua história, retratada no documentário Meu Nome é Tiana, transforma-se em testemunho vivo de uma geração que resistiu quando quase tudo conspirava para o apagamento. Homenageá-la é reconhecer uma ancestral viva, guardiã de experiências, afetos e lutas que abriram caminhos para tantas outras. Tiana não apenas sobreviveu: ela se tornou símbolo da possibilidade de existir, envelhecer e ser lembrada com dignidade em um país que ainda insiste em negar esse futuro a tantas pessoas trans.

Se você é uma pessoa trans com 45 anos ou mais, participe. Se conhece alguém que possa contribuir, compartilhe. Cada resposta fortalece essa construção coletiva e ajuda a transformar experiências em evidências, demandas em políticas e invisibilidade em reconhecimento.

Porque envelhecer também é um direito. E garantir esse direito começa por conhecer, registrar e valorizar as histórias de quem abriu caminhos para que hoje tantas outras pessoas possam existir.

ANTRA integra articulação nacional do movimento feminista para o 8 de março com mais de 300 organizações

Direitos e Política, Visibilidade
Representantes de organizações feministas entregam manifesto ao governo federal em mobilização nacional antes do 8 de Março. | Crédito: Marla Galdino/MMulheres

A construção das mobilizações do 8 de março de 2026 tem sido marcada por uma ampla articulação entre movimentos feministas, populares e sociais em todo o país. Entre as organizações que participam diretamente desse processo está a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), que integra a articulação nacional responsável por organizar as mobilizações do Dia Internacional de Luta das Mulheres e por consolidar um conjunto de propostas políticas apresentadas ao governo federal.

Desde o início do ano, organizações feministas, sindicais e movimentos sociais têm realizado reuniões semanais para estruturar uma agenda comum de reivindicações. O resultado desse processo foi a construção do manifesto “Pela vida das mulheres: contra o imperialismo, por democracia, soberania e pelo fim da escala 6×1”, documento que reúne mais de 300 assinaturas de entidades e movimentos e que foi entregue ao governo federal como parte das mobilizações políticas do 8 de março.

Entre as principais pautas apresentadas estão a redução da jornada de trabalho com o fim da escala 6×1, a ampliação do orçamento para políticas públicas voltadas às mulheres, o fortalecimento do Plano Nacional de Cuidados, políticas de enfrentamento à violência de gênero e medidas estruturais para enfrentar desigualdades econômicas, raciais e territoriais. O documento também reivindica a ampliação de equipamentos de atendimento às mulheres em situação de violência, a criação de um fundo emergencial para essas políticas e o fortalecimento de campanhas de prevenção em todo o país.

Outro eixo central da agenda envolve a defesa da justiça reprodutiva e do acesso ao aborto legal nos casos previstos em lei, bem como o fortalecimento das políticas de saúde integral para mulheres e pessoas que gestam. O manifesto também destaca a necessidade de combater o racismo estrutural, a violência policial e as desigualdades que atingem especialmente mulheres negras, indígenas e periféricas.

A agenda inclui ainda temas como justiça climática, soberania alimentar, defesa dos territórios e fortalecimento da agroecologia, além da defesa da democracia diante do avanço de forças conservadoras e da extrema direita no Brasil e no mundo. Nesse contexto, os movimentos ressaltam a importância de políticas públicas estruturais capazes de garantir o bem viver das mulheres em toda a sua diversidade.

Para a ANTRA, a presença de travestis e mulheres trans nesse processo de articulação nacional representa um avanço político importante dentro do movimento feminista. A participação da entidade contribui para inserir de forma mais consistente na agenda feminista pautas como o enfrentamento ao transfeminicídio, a garantia de acesso à saúde integral para pessoas trans, a inclusão no mercado de trabalho e o combate à violência institucional que atinge essa população.

A presença trans na construção dessas agendas também reforça a compreensão de que as violências de gênero se manifestam de forma interligada e que o enfrentamento ao patriarcado exige uma perspectiva que considere as múltiplas desigualdades que atravessam os corpos e as vidas das mulheres. Nesse sentido, a articulação entre movimentos feministas, negros, populares e LGBTQIA+ fortalece a capacidade de incidência política e amplia o alcance das reivindicações.

A mobilização também tem produzido efeitos concretos na arena institucional. Como parte dessa articulação, representantes dos movimentos feministas entregaram ao governo federal o manifesto com as propostas consolidadas e iniciaram um diálogo direto com o Ministério das Mulheres e a Secretaria-Geral da Presidência da República para discutir a incorporação dessas pautas em políticas públicas e no planejamento de um novo Plano Nacional de Políticas para as Mulheres.

Movimentos se reuniram para debater bandeiras de luta, no ministério das mulheres, junto da ministra Marcia Lopes. | Crédito: Marla Galdino/MMulheres
Com a entrega do manifesto, as organizações feministas esperam ampliar o debate público sobre as políticas necessárias para garantir direitos e reduzir desigualdades de gênero no Brasil. As mobilizações previstas para o 8 de março devem reforçar essa agenda nas ruas e pressionar o poder público a responder às reivindicações apresentadas.

Para as organizações envolvidas, o processo de construção coletiva das mobilizações do 8 de março demonstra a força da unidade entre diferentes movimentos sociais. Ao reunir mulheres cis, trans e travestis em torno de uma agenda comum, a articulação reafirma que a luta feminista se fortalece quando reconhece a diversidade de experiências e amplia sua capacidade de enfrentar as múltiplas formas de violência, desigualdade e exclusão presentes na sociedade brasileira.

O Manifesto final pode ser baixado a seguir:

Documentário Xicas participa de Festival de Curtas de Clermont-Ferrand e reforça protagonismo trans no cinema internacional

Cultura, Direitos e Política, Visibilidade

A produção audiovisual brasileira volta a ganhar destaque no cenário internacional com a participação de curtas-metragens nacionais no Festival Internacional de Curtas-Metragens de Clermont-Ferrand, na França, um dos mais importantes eventos do mundo dedicados ao formato. O festival, realizado entre os dias 30 de janeiro e 7 de fevereiro, reuniu cineastas, distribuidores e curadores de diversos países, celebrando a diversidade criativa e a força das narrativas brasileiras na cena global.  

Entre as obras selecionadas para o programa Brazilian Shorts from São Paulo está Xicas, dirigido por Asaph Luccas e co-roteirizado por Hela Santana. O documentário poético acompanha a presença das travestis no desfile da escola de samba Paraíso do Tuiuti em 2025, cujo enredo homenageou Xica Manicongo, figura histórica reconhecida como a primeira travesti não indígena do Brasil. Ao transitar entre passado, presente e futuro, a obra revela uma revolução travesti em plena avenida e articula narrativas de resistência, corpo e memória. A produção celebra a trajetória histórica das travestis brasileiras na luta por respeito e liberdade, tomando Xica Manicongo como eixo simbólico desse percurso, no enredo desenvolvido por Jack Vasconcelos.

A participação de Xicas no festival representa uma conquista significativa para a ANTRA, que realiza a produção do documentário, que tem investido na produção de memória e ampliação de vozes trans no audiovisual brasileiro. A presença do documentário no segundo maior festival do mundo reforça não apenas o talento da comunidade trans na produção cultural, mas também a importância de colocar narrativas que rompem estereótipos no centro das discussões internacionais.

Para a presidenta da ANTRA, a visibilidade de Xicas em Clermont-Ferrand é um marco político e cultural. “Ver nossa produção representando o Brasil em um dos principais festivais de curtas-metragens do mundo é motivo de orgulho e reafirmação de que as histórias trans merecem espaço e reconhecimento – não apenas dentro do país, mas também no cenário global. Xicas é uma obra que carrega identidade, luta e ancestralidade, e sua exibição internacional amplia o alcance dessas experiências”, afirmou.

O Festival de Clermont-Ferrand é reconhecido por sua abrangência e importância no circuito cinematográfico, atraindo milhares de profissionais e títulos de todos os continentes. A seleção de curtas brasileiros, entre eles Xicas, reflete a vitalidade e diversidade da produção audiovisual nacional, que dialoga com temas sociais, culturais e políticos contemporâneos.

Além de Xicas, a programação brasileira inclui outras obras que exploram diferentes perspectivas e linguagens cinematográficas, reforçando a presença plural do Brasil no evento. A participação no festival também abre oportunidades de intercâmbio, formação e fortalecimento de redes entre cineastas brasileiros e interlocutores internacionais.

A ANTRA celebra essa conquista como mais um passo na luta por representações autênticas e pelo reconhecimento da potência criativa de travestis e pessoas trans no campo audiovisual. Ao projetar Xicas no exterior, a entidade contribui para ampliar narrativas que desconstroem preconceitos e revelam trajetórias de resistência, memória e identidade. Em breve o filme será lançado oficialmente no circuito nacional.