
A LGBTIfobia saiu do armário e diariamente assina nosso atestado de óbito.
Direitos e Política, Violência

A Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), cumprindo seu dever estatutário de defesa dos direitos da população de Travestis e transexuais brasileira, move ação contra o Deputado Estadual Douglas Garcia (PSL/SP), devido suas declarações transfóbicas, incitação a violência contra a população Trans e por ferir o direito a individualidade da nossa população ao dizer que tiraria a tapas, qualquer travesti ou transexual de dentro do banheiro.
A tentativa proibição de utilização de banheiro feminino por uma travesti ou transexual feminina configura violação à proteção da dignidade humana e ao direito de liberdade sexual e de gênero, prejuízos que se materializam contra indivíduos e grupos percebidos e subjugados como minorias altamente estigmatizadas em nossa sociedade.
Neste campo, pode-se relacionar o direito à utilização de banheiros com o conteúdo essencial do direito de igualdade, com a proibição de discriminação direta e indireta por motivo de identidade de gênero, sem esquecer da intersecção entre tal critério proibido de discriminação e a idade, dada a intensidade dos prejuízos para crianças e adolescentes transexuais.
Há quem diga que a utilização de banheiros por pessoas trans femininas coloque em risco a segurança das demais usuárias. Esse medo, à primeira vista concedível, não encontra substrato na realidade, nem é capaz de justificar tratamento restritivo. Isso porque não há qualquer dado concreto que ampare o temor de que pessoas trans sejam ameaças ou cometam violência contra usuárias de banheiros femininos, o que faz juridicamente ilegítima tal restrição, pois encontram-se fundadas em meras suposições preconceituosas, desprovidas de qualquer suporte fático concreto.
Ao contrário, o que se relata são episódios de violência moral e física contra travestis e transexuais femininas quando são obrigadas a usar o banheiro masculino.
Especialmente quando um deputado ousar ameaçar toda uma população na plenária de uma casa legislativa, isso é um dano irreparável, visto que incita a violência e o ódio contra a população trans, quem vem sendo cotidianamente violentada e tenta sobreviver no país que mais mata pessoas trans do mundo. E é exatamente por isso que não iremos admitir este tipo de discurso. Repudiamos este ódio disfarçado de boa vontade e cuidado, e rechaçamos que este discurso esteja legitimado por um representante do estado, que se esconde sob o manto de imunidade parlamentar para destilar ódio, mesmo tendo sido eleito para lutar para defender e representar o povo.
Essa é uma discriminação é direta porque é decorrente da intenção explícita de barrar a população trans em instalações abertas ao público que possibilitam o exercício adequado do direito fundamental à saúde. Nesse caso, é precisamente a condição transexual que motiva a restrição, de forma consciente e proposital, o que é fácil de constatar e contrastar com o direito de igualdade e seu mandamento antidiscriminatório.
Quanto à privacidade como fundamento para proibição de utilização, pondera-se sobre a parcialidade e insuficiência do argumento, na medida em que transexuais obrigadas a utilizar um banheiro que não corresponde à sua identidade de gênero também tem sua privacidade violada.
A travestilidade e a transexualidade, não importam se abordadas biomédica ou socialmente, são indissociáveis do modo de ser e de estar no mundo das pessoas transexuais. Ela não é atributo ou característica secundária ou acessória, possível de desagregar da existência humana de tais pessoas. Desse modo, desconsiderar ou excluir pessoas de qualquer espaço, em virtude de tal condição identitária significa ferir o âmago da proteção constitucional da dignidade humana.
É o que acontece quando se postula simplesmente ignorar a transexualidade num espaço de vida e convívio tão significativo e vital como o acesso a banheiros abertos ao público ou mesmo no esporte ignorando sua condição de identidade de gênero, feminina.
Em suma, no tocante à proteção constitucional da dignidade humana e ao direito fundamental à auto-determinação sexual, não reconhecer o direito fundamental à utilização de banheiro feminino por uma travesti ou transexual feminina implica rejeitar a possibilidade de ser e de existir como se é, afetando algo essencial para o modo único, irrepetível e original da pessoa; inviabilizam-se também as condições sem as quais a auto-determinação e a liberdade sexuais e de gênero, simplesmente deixam de ser possíveis.
”Não é possível que uma pessoa seja tratada socialmente como se pertencesse a sexo diverso do qual se identifica e se apresenta publicamente, pois a identidade sexual e de gênero encontra proteção aos direitos da personalidade e na dignidade da pessoa humana, previstos na Constituição Federal. O deputado em questão feriu toda a coletividade de travestis e mulheres transexuais e proferiu verdadeiro discurso de ódio. A ANTRA requer na ação uma retratação formal em jornal de grande circulação, suas redes sociais institucionais e o pagamento de indenização por danos morais coletivos a ser utilizado para promoção de politicas publicas de combate a transfobia no estado de São Paulo.” (Dra Maria Eduarda Aguiar – Advogada ANTRA)
É Triste ter que mover uma ação contra um Deputado eleito para defender o povo, mas não podemos ficar caladas quando este promove ódio, incita a violência e perpetua transfobia institucional através do seu discurso violento, dentro da Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo (ALESP) e tendo repercutido nacionalmente de forma negativa e incentivando mais violência contra nossa população. O que demonstra que o estado está tomado por atitudes como esta, que legitimam a violência contra uma população inteira, que é marginalizada e perseguida pelo próprio estado na forma de seus representantes.

**Texto Contém trechos do Artigo: Direitos humanos, transexualidade e “direito dos banheiros” – Roger Raupp Rios e Alice Hertzog
Pesquisa inédita da ANTRA lançada por ocasião do Dia 17 de Maio – Dia Internacional de Combate á LGBTIfobia aponta que 99% da população de lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e intersexos (LGBTI), não se sente segura no Brasil.
Parece a Maria Gadu do Pampa. Eu tenho é nojo dessa gente, por isso que não vou na Cidade Baixa”. Ouvi isso na fila da padaria, no bairro Santa Maria Goretti, em Porto Alegre, numa segunda-feira, um dia após o primeiro turno das eleições de 2018. O homem que me dirigiu essas palavras estava atrás de mim e, de tanto medo que senti, não tive coragem de girar meu corpo e encarar nos olhos o agressor. Eu temi pela minha integridade física e psicológica naquele momento: aquela pessoa poderia me humilhar ainda mais, ali mesmo, ou então poderia me seguir, me bater, me matar. O motivo? A minha aparência física “entrega” que sou lésbica, e isso não é aceitável para boa parte da população no Brasil, empoderada pela eleição de Jair Bolsonaro, com uma política que prega o “conservadorismo nos costumes”, para a Presidência da República. Para minha sorte, a violência encerrou ali, mas poderia ter sido diferente. Fui vítima de preconceito, esse decorrente da minha orientação sexual. São muitos LGBTs (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e travestis) brasileiros que passam por situações similares. Inclusive, meu desfecho foi muito menos trágico que o de tantos outros, que são agredidos, violentados e até mortos por simplesmente serem e expressarem quem são. (P. Cândido, no texto Comunidade LGBT vive tensão diante da ascensão do conservadorismo[1].)
Ainda em outubro de 2018, o atual presidente e até então candidato assinou um documento do Voto Católico Brasil, no qual afirmava que defenderia “valores inalienáveis” do grupo religioso. Dentre esses valores estão o matrimônio como sendo estritamente entre homem e mulher e o combate à “ideologia de gênero”. E desde sua eleição, segue alternando episódios de ataques públicos gratuitos a população LGBTI e piadas homofóbicas em muitas de suas declarações.
”Pertencer a um grupo socialmente excluído, como é o caso da população LGBT, é estar diariamente exposto ao ódio e à intolerância de todos aqueles que se julgam no direito de “discordar” das identidades sexuais e de gênero que fogem à norma. É o discurso de fundamentalistas cristãos que está matando gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais. É chamar os outros de “viadinho”, “mulher macho” ou “traveco”, é fazer piada com o que não tem graça e é a falta de reflexão sobre as próprias atitudes que provocam a morte de milhares e milhares de LGBTs em todo o planeta”. (O mundo não é um lugar seguro para LGBTs, por Vinícius de Vita, publicado no portal HuffPost Brasil)
De acordo com a pesquisa “Violência contra LGBTs+ nos contextos eleitoral e pós-eleitoral”[2], consta que ”as declarações do então candidato a presidente Jair Bolsonaro a respeito dos homossexuais e outros grupos vulneráveis estimularam, em certa medida, parte de seu eleitorado a expor preconceitos e discriminações”. Os dados publicacos apontam que ”houve uma escalada do discurso de ódio no contexto eleitoral. Ativistas e militantes denunciaram agressões físicas ou verbais contra pessoas LGBT+. O assunto passou a ocupar os noticiários. Além dos depoimentos de pessoas LGBT+ que sofreram xingamentos e ofensas nas redes sociais por parte de eleitores e apoiadores de campanhas de extrema direita, foram noticiadas situações envolvendo ameaças de morte e homicídio de pessoas LGBT+ com motivação político-eleitoral”, e que 54,5% das travestis, homens e mulheres trans afirmaram ter sofrido violência MAIS DE TRÊS VEZES motivadas por sua orientação sexual e/ou identidade degênero durante as eleições de 2018″. E no decorrer do período pós eleitoral, a população LGBTI, especialmente aquelas pessoas que não seguem o padrão cis-hetero-performativo, passou a viver em constante alerta devido o aumento da violência. O que nos motivou a realizar esta pesquisa.
Durante o período de 13 a 17/05/2019, realizamos uma pesquisa em nossas redes sociais e parceiras, a fim de traçar como se encontra a sensação de segurança da população LGBTI no Brasil, onde perguntamos o quanto estas se sentem seguras. Os dados serão utilizados para fomentar a discussão e a ampliação de uma pesquisa mais aprofundada sobre o tema. Segundo o site Spartacus, que leva em consideração critérios como políticas de inclusão e violência para a população LGBTI no mundo, o Brasil passou do 55º lugar de 2018 para o 68º em 2019 no ranking de países seguros para a população LGBT[3].
Hoje no país, existe de forma acentuada uma naturalização da violência, do discurso de ódio e a incitação contra pessoas LGBTIs e devemos lembrar que os números governamentais tem sido insuficientes ou inexistentes frente a amplitude dessa violência não reflete ainda a totalidade do problema, que vem tornando o Brasil, uma nação hostil a nossa população.
Escolhemos o ambiente virtual como local para este levantamento, as redes sociais Facebook e o Instagram especificamente, pois através delas é possível nos informar e nos expressar, além de serem usadas como canais de difusão de conhecimento e dados que visam contribuir para o enfrentamento da LGBTIfobia em nossa sociedade e romper de vez com os ciclos da violência contra a população LGBTI, especialmente contra a população Trans.
Os resultados são alarmantes e se basearam na interação espontânea com as publicações, onde as pessoas respondiam SIM ou NÃO a pergunta: “VOCÊ SE SENTE SEGURA/O NO BRASIL?”. E os principais elementos encontrados entre os mais de 10mil engajamentos no post do Facebook e as 1350 pessoas que interagiram em ambas as redes, apenas 4 pessoas responderam que se sentiam seguras, o que representa 0,3% dos participantes.
Entre os participantes, 40% se identificaram como pertencentes ao gênero feminino e 2% como pessoas não-binárias. Do total de gênero feminino, 30% eram pessoas trans. Não foi possível profundar questões como classe e raça/etinia.
Seguramente este levantamento, por mais simples que possa parecer, reflete a forma como a população LGBTI se sente no Brasil e dialoga diretamente com outros dados, índices e pesquisas feitas neste contexto que traz a violência como o maior desafio a ser enfrentado pela população LGBTI.
Reforçamos que esta foi uma pesquisa feita por iniciativa própria, e que é de suma importância a realização de um levantamento mais aprofundado, qualitativo, de forma ampla e que seja capaz de ampliar marcadores necessários para um diagnóstico mais robusto, e que apresente dados suficientes para pensarmos no enfrentamento de toda forma de discriminação e preconceito contra nossa população.
[1] Comunidade LGBT vive tensão diante da ascensão do conservadorismo. Disponível em: https://www.ufrgs.br/humanista/2019/01/24/comunidade-lgbt-vive-tensao-diante-da-ascensao-do-conservadorismo/
[2] Pesquisa “Violência contra LGBTs+ nos contextos eleitoral e pós-eleitoral”. Disponível em: http://violencialgbt.com.br/
[3] Brasil cai no Ranking de países seguros para LGBTI. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/diversidade/brasil-cai-13-posicoes-no-ranking-de-paises-seguros-para-lgbts/
*17 de maio, Dia mundial de combate a LGBTIfobia*
_#ÉCRIMESIM_

Lançado o Dossiê dos Assassinatos e da Violência contra Travestis e Transexuais no Brasil em 2018.
ANTRA e IBTE fecharam parceria no monitoramento dos dados dos Assassinatos e Violência contra Travestis, Mulheres Transexuais, Homens Trans e demais pessoas trans no Brasil em 2018.
Simbolicamente, optamos pelo lançamento deste Dossiê no Dia Nacional da Visibilidade Trans, comemorado no Brasil no dia 29 de janeiro desde o ano de 2004.
Geralmente, neste dia todos os olhares se voltam para a causa Trans, percebe-se nas redes sociais mensagens de afetos e relatos potentes o dia todo, de quem vive um dia após o outro, sem a certeza do que virá a seguir. Nesta data comemoramos as lutas e histórias de resistência da população de Travestis, Mulheres Transexuais, Homens Trans e demais pessoas Trans que tem urgência de visibilidade, representatividade e ocupação de espaços que sempre foram negados historicamente a nossa população.
Infelizmente, o Brasil segue na liderança no ranking dos assassinatos de pessoas Trans no Mundo, conforme publicado no último relatório da Trangender Europe (TGEU).
O presente relatório, evidencia os assassinatos que aconteceram contra a população Trans em 2018, mas também trará dados sobre tentativas de assassinatos, violações de direitos humanos e outras mortes não solucionadas. Além de uma análise sobre suicídio e um artigo tratando sobre a LGBTIfobia estrutural que vivemos no Brasil. E que tem se intensificado, ao passo em que as forças conservadoras e anti-direitos LGBTI assumem o poder e passam a implementar medidas que visam dificultar o acesso a direitos e a cidadania plena.
Durante a análise, nos perguntávamos sobre uma aparante queda nos números sobre casos de assassinatos, e chegamos a conclusão de que seria outro motivo: Houve um aumento de 30% na subnotificação dos casos pela mídia. O que compromete os resultados e faz parecer que houve uma queda nos assassinatos, quando na verdade houve um aumento na invisibilidade destas mortes.
No ano de 2018, ocorreram 163 Assassinatos de pessoas Trans, sendo 158 Travestis e Mulheres Transexuais, 4 Homens Trans e 1 pessoa Não-Binária. Destes, encontramos notícias de que apenas 15 casos tiveram os suspeitos presos, o que representa 9% dos casos.
Em Números absolutos: o Rio de Janeiro foi o que mais matou a população trans em 2018, com 16 assassinatos. Em segundo a Bahia, com 15 casos, terceiro ficando São Paulo com 14 casos, em quarto lugar o Ceará, com 13 assassinatos e ocupando a quinta posição, o Pará com 10.
Dos quais, 82% dos casos foram identificadas como pessoas negras e pardas. As questões de gênero se reforçam e demonstram que 97,5% (aumento de 3% em relação a 2017) dos assassinatos foram contra pessoas trans do gênero feminino (158 casos). 53% foram cometidos por armas de fogo, 21% por arma branca e 19% por espancamento, asfixia e/ou estrangulamento. 83% dos casos os assassinatos foram apresentados com requintes de crueldade. E que 80% dos assassinos não tinham relação direta com a vítima
No ano de 2018 foram registrados pela imprensa brasileira 71 tentativas de homicídio, um aumento de 9,8%, sendo que todas as vítimas são do gênero feminino.
Houve ainda 72 casos de violações de direitos humanos – Os casos registrados em sua maioria têm ligação com transfobia, sendo 77% dos casos, que vai desde a proibição de usar o banheiro de acordo com sua identidade de gênero até a negativa de usar o nome social nos documentos escolares.
O Transfeminicídio vem se reproduzindo entre todas as faixas etárias. Uma pessoa Trans apresenta mais chances de ser assassinada do que uma pessoas cisgnênera. Porém estas mortes acontecem com maior intensidade entre travestis e mulheres transexuais, negras. Assim como são as negras as que tem a menor escolaridade, menor acesso ao mercado formal de trabalho e a políticas públicas.
Leia o relatório completo em:

Fizemos o levantamento e cruzamento de dados para estimar as taxas de assassinatos das pessoas trans no Brasil, em relação do ano de 2017 e nos deparamos com índices alarmantes. A expectativa de vida das pessoas trans gira em torno de 35 anos e convivemos diariamente com o risco de morte no transito na sociedade.
O Brasil não é o país que mais mata pessoas Trans do mundo?
Em 2017, a ANTRA iniciou um trabalho de mapeamento destes assassinatos e o transformou em um relatório contendo as informações sobre o perfil das vitimas, genero, raça e classe social em que se encontravam a maior parte das pessoas que foram assassinadas. Revelando ainda um estado omisso, criminosos soltos ou não identificados e a prova do porque estamos no topo da lista dos assassinatos contra a população de Travestis e Transexuais. Em 2018, fechamos parceria com o Instituto Trans de educação (IBTE) a fim de agregar ainda mais a visibilidade dos dados e fortalecer este importante trabalho.
Em recente matéria, o site Huff Post lançou um levantamento sobre Os 10 piores estados do Brasil para ser negro, gay ou mulher no Brasil. E resolvemos fazer o mesmo relação a população trans, visto que os dados referentes a nossa população ainda não tem sido visibilizados pelos órgãos que fazem este tipo de mapeamento.
DADOS
Em relação aos dados proporcionais a população, os 10 estados que mais assassinam Travestis e Transexuais do Brasil são: Paraíba, Alagoas, Roraima, Tocantis, Ceará, Espírito Santo, Mato Grosso, Pernambuco, Acre e Amazonas – com taxas de acordo com o quadro abaixo:

Foram utilizados os dados levantados no Mapa dos Assassinatos de pessoas Trans no Brasil em 2017 da ANTRA e do Dossiê 2017 feito pelo IBTE. A novidade constante nos dados deste relatório é que fizemos um recorte sobre assassinatos, qualificados ou não no código penal. Mortes provocadas, intencionais e que contem requintes de crueldade. O que denota o ódio contra a nossa população. Aos nossos corpos e o desejo que eles despertam.
A negligência do Estado é tamanha que não há dados oficiais sobre os assassinatos em comento. A ANTRA e o IBTE decidiram publicizar esse descaso e escancarar esta ferida que segue aberta, que persegue e mata pessoas como eu, por ser quem somos, materializando esses dados por meio do presente relatório.
O levantamento é feito a partir de pesquisa dos dados em matérias de jornais e mídias vinculadas na internet. De forma manual, individual e diária. Há ainda grupos específicos que publicam informações sobre pessoas assassinadas e/ou são enviadas informações através da rede de afiliadas da ANTRA, IBTE e Rede Nacional de Operadores de Segurança Pública – LGBTI (RENOSP), pelos mais diversos meios e canais de comunicação (Email, Facebook, Whatsapp, etc).
Os dados não seguem um padrão, há muitos casos em que não existe respeito a identidade de gênero das vítimas ou mesmo o nome social.
DENUNCIAS
Diante do panorama e do aumento assustador destas violências, temos feito diversas ações com o intuito de visibilizar e denunciar através dos dados coletados e denuncias feitas a órgãos internacionais.
Em janeiro de 2018, no Dia da Visibilidade Trans, o Relatório MAPA DOS ASSASSINATOS 2017 – ANTRA foi entregue ao Representante do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA-ONU/BR 2018), Sr Jaime Nadal, na Casa da ONU em Brasília_DF.
E em Maio de 2018, durante o 168º Período de Sessões da Corte Interamericana dos Direitos Humanos, em Santo Domingo, Republica Dominicana, nas mãos da Sra Margarette May Macaulay. A fim de denunciar os assassinatos e a crescente onda de violência contra a população de Travestis e Transexuais, inclusive contra militantes e defensoras dos Direitos Humanos que foram brutalmente assassinadas em 2017.
ENTREGA DO RELATÓRIO DA ANTRA À CIDH
Recentemente, foi entregue ainda uma cópia nas mãos do Ministro Luiz Roberto Barroso, no Supremo Tribunal Federal, a fim de trazer para o debate, estas violências e violações dos direitos da população trans e o Transfeminicídio Estrutrual no Brasil.
A ANTRA e o IBTE compõe hoje o Observatório da Violência contra pessoas Trans e não binárias da América Latina e Caribe.
Com o intuito de aumentar a rede combate a violência, mapeamento dos dados e visibilidade das violações dos direitos humanos e assassinatos de Travestis, Mulheres Transexuais, Homens Trans e demais pessoas Trans, acaba de ser fundado o Observatório da violência da América Latina e do Caribe.
Observatório tem como objetivo principal a unificação do bloco de países que compõe a América Latina e o Caribe, para o levantamento e produção de dados, pesquisas e denuncias que visam jogar luz sobre a omissão dos países em relação as violências que a população Trans está exposta.
Além de denuncias, pretendemos discutir formas de identificar e qualificar os assassinatos motivados pela transfobia e outras formas de discriminação contra travestis e transexuais como TRAVESTICÍDIO ou TRANSFEMINICÍDIO a fim de reconhecer a violência específica a que está exposta a nossa população.
Primeira Condenação por Travesticídio na Argentina
Além disso, sistematizar violências simbólicas, assassinatos sociais e outras formas de violência em cada país, que contará com representação local, ficando responsável pela verificação dos dados informados.
Participaram como membro fundadoras a Prof Sayonara Nogueira do Instituto Brasileiro Trans de Educação (IBTE) e Bruna Benevides da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) – que estarão participando efetivamente desde sua Fundação e como instituições que representam o Brasil no observatório neste primeiro momento, por sua parceria é importante contribuição no mapeamento da violência contra pessoas trans no Brasil. Além do Coletivo Trans do Uruguay representando por Collete Spinete e Claudia Vasquez pela OTRANS – Colectivo trans y travesti de Argentina.
Em breve será lançado site oficial, além de campanhas de filiação e plataforma de denuncias.

Somente no primeiro semestre de 2018, foram assassinadas 86 travestis e transexuais, sendo estas, a maioria do gênero feminino, negras e prostitutas atuando na rua. Ficando claro que o assassinato de nossa população tem um alvo preferencial, mas que não exime as demais existências trans da violência cotidiana e as vezes velada, de forma simbólica, religiosa ou psicológica.

Assassinatos na calada da noite, tiros, apedrejamento e facadas, normalmente precedidos de espancamentos, métodos de tortura e pouca possibilidade de legítima defesa são alguns dos aspectos que norteiam os crimes contra travestis e transexuais.
Este levantamento se baseia, principalmente, em reportagens que abordaram os assassinatos de pessoas travestis e transexuais e, também, por meio de informações que, por vezes, existem exclusivamente em redes sociais, como o Facebook ou através de envio pelas redes afiliadas.
Em 2018, firmamos o compromisso de nos aproximar e firmar parcerias importantes para este mapeamento. Desta forma, o IBTE e a ANTRA vem trabalhando incansavelmente para visibilizar estes dados e atuar de forma eficaz na veracidade das informações e trazendo a discussão para fora do movimento social.
ANTRA ENTREGA RELATÓRIO 2017 A CIDH
Viver no Brasil, o país que mais mata Travestis país que mais mata Travestis e Transexuais do Mundo, de acordo com a ONG Transgender Europe (TGEU) é um desafio e tanto. Especialmente para uma população que oficialmente não tem reconhecida sua cidadania. Que não existe em dados reais, populacionais, demográficos ou qualquer outro que possa demonstrar em números suas existências ou o quanto estão excluídas, e como são empurradas para a marginalização. Hoje no Brasil, é mais fácil contar as pessoas trans assassinadas, do que fazer um levantamento populacional desta população.
No último ano, chegamos ao maior índice de assassinatos de pessoas trans dos últimos 10 anos. E mesmo assim, ainda é preciso “convencer” as pessoas que elas foram assassinadas pelo ódio. Não temos uma lei que criminalize a discriminação por orientação sexual ou identidade de gênero no Brasil, consequentemente, que criminalize ou qualifique esses assassinatos pela sua real motivação, a Transfobia.
A negação de tal motivação, é exatamente o que nos faz pensar o quanto a transfobia está naturalizada e é permitida em nossa sociedade. Negar a motivação transfóbica destes assassinatos é, antes de mais nada, jogar a culpa (por terem sido mortas) nas vítimas, ao tentar justificar que foram assassinadas – de forma quase sempre extrema – por estarem em ambientes violentos, em sua maioria na prostituição de rua ou sugerir que estavam envolvidas com atos ilícitos. É esquecer que foram o estado e a sociedade, com todos os seus mecanismos simbólicos de exclusão que as colocou ali, naquele lugar. O não-lugar, como gostamos de nos referir no movimento social.
E tendo sido colocadas ali pela violência transfóbica, as vezes simbólica, outras psicológicas ou mesmo físicas, elas têm que se apoderar do seu corpo para garantir a subsistência de suas vidas, exatamente naqueles mesmos locais, perigosos e marginais.
Ora, se elas são empurradas a estar neste local, muitas vezes de forma precoce por suas famílias, sem possibilidade de frequentar a sala de aula, e de lá dificilmente conseguem sair, e de lá tiram seu sustento. Como podem ao ser mortas, ter ignoradas exatamente o motivo que as colocou ali?

Parem de nos matar!
Fontes:
Governo do Estado do Ceará NÃO CONSIDERA A MORTE DE DANDARA (e tantas outras) COMO TRANSFOBIA. Mesmo diante da crueldade com que o assassinato aconteceu, foi filmado e vinculado nas redes sociais.
No Ceará, o Estado mais matou Travestis e Transexuais do Brasil em 2017 (único estado que aparece nas listas de dados absolutos e em dados proporcionais – ANTRA e IBTE), que Matou Dandara e Herika de formas brutais.
Nem mesmo o caso Dandara foi visto (institucionalmente) como Transfobia. Apesar de a Transfobia ter sido reconhecida como qualificadora pelo Tribunal do Júri. Mais de um ano depois, e ainda não existe essa possibilidade de constar a Transfobia como motivo.

Não existe a possibilidade de enquadramento como Transfobia como motivo presumido nos Registros de Ocorrência e nem reconhece esses assassinatos como feminicídio – com certeza em outros estados essa prática é recorrente.
Este ano já foram 5 assassinatos no Ceará (até abril/2018) e nenhum enquadrado como Transfobia ou Feminicidio.
Este é o reflexo do Brasil, que invisibiliza e nega nossas identidades até na hora de nossas mortes. Que nos trata no masculino depois de mortas, inclusive durante todo julgamento. Que solta assassinos confessos (Teresina-PI.2017). Que tem nos caçado desde a ditadura.
Que vem se omitindo de olhar para essa violência contra a nossa população e nega a possibilidade qualificar esses crimes que são específicos com nuances e motivações específicas, para continuar calado frente ao apagamento de nossas vidas que vem sendo perpetuada pelo próprio estado.
Repudiamos essa ação que corrobora com os assassinatos e gera a impunidade dos assassinos de outros casos, em sua maioria soltos e sem nenhuma investigação em curso.
Não iremos aceitar caladas! TRANSFOBIA É CRIME!
Parem de nos matar!
Rio de Janeiro, 02 de maio de 2018.
Bruna Benevides
Secretária de Articulação Política ANTRA
#Paremdenosmatar #MeuNomeImporta #ANTRA #IBTE #CriminalizeLGBTIfobia
Diante do Aumento da Violência contra a nossa população, a ANTRA e o IBTE fecham parceria importante no mapeamento dos assassinatos e violação dos direitos das pessoas trans.

A Prof. Sayonara Nogueira, que faz o levantamento há 4 anos e hoje é responsável pelo mapeamento dos assassinatos, tentativas e violações dos Direiros Humanos de Travestis, Mulheres Transexuais e Homens Trans junto ao IBTE, aceitou o Convite da Presidenta da ANTRA, Sra Keila Simpson, para firmarmos uma parceria importante a fim de que os dados se tornem ainda mais visíveis e que a partir da união das duas principais redes que fazem este levantamento da população Trans, possamos traçar medidas eficazes de enfrentamento a essa violência.
Bruna Benevides, Secretária de Articulação Politica e autora do Mapa e relatório dos Assassinatos de Travestis e Transexuais Brasileiras da ANTRA em 2017 esteve reunida com a Prof Sayonara, em Brasília_DF, a fim de dialogarem sobre a importância desta parceria, discutir as metodologias e estratégias, além de trocarem suas experiências e criarem um plano de trabalho. Contaram ainda com a Presença da Secretária Nacional de Políticas LGBTI do Ministério dos Direitos Humanos, Senhora Marina Reidel.


Ambas estarão participando no I Seminário Internacional de Assassinatos da População LGBTI, apresentando os crescentes dados. Onde poderão discutir com outros segmentos e dialogar com representantes de outros países e do poder públicos sobre o combate efetivo destes assassinatos e a denuncia do Brasil frente as cortes internacionais.
Em Janeiro de 2018, a ANTRA fez a entrega do relatório final dos Assassinatos de Travestis e Transexuais Brasileiras da ANTRA em 2017 a ONU, na presença de diversas Instituições e representantes da sociedades civil e do poder público.

Entrega do Relatório ao Sr Jaime Nadal – ONU Brasil
Casos extremos de violência física tem chegado ao nosso conhecimento, através de nossa rede de afiliadas. O que tem nos deixado muito preocupadas, visto que, com o aumento do conservadorismo e a onda fascista que cresce no país, as populações mais vulneráveis são aquelas que já vinham tendo suas vidas colocadas em risco.
De acordo com o levantamento da ANTRA, já são 52 assassinatos de pessoas Trans no Brasil em 2018. Até 29/03, temos um aumento 45% (16 casos) no número de assassinatos em 2018, em relação ao mesmo período do ano passado. E com o aumento da violência brutal com que os assassinatos acontecem.
Os dados são detalhados no Mapa dos Assassinatos de Travestis e Transexuais no Brasil em 2018, confirmando o indice de que a cada 48h uma pessoa Trans é assassinada com requintes de crueldade no Brasil. O País que mais mata travestis e transexuais do mundo.

Campanha ASSASSINATOS
É preocupante o momento que vivemos. A maior parte das vítimas da violência possui características semelhantes. Além do gênero feminino, a idade é um fator que merece destaque. Quanto mais jovem, mais suscetível a violência e ao assassinato.
Estimamos que cerca de 80% dos suspeitos não tinham relação direta com as vitimas, visto que são clientes em potencial, o que dificulta a identificação dos suspeitos.
Por não existirem dados oficiais sobre a violência contra a população trans no Brasil, o levantamento anual é feito a partir de pesquisa em matérias de jornais e informações que circulam na internet, bem como de relatos que são enviados para a organização. A coleta é diária e manual. Ao longo desse trabalho, as informações são inseridas em um mapa virtual, que detalha nome, identidade de gênero da vítima, local da morte e o que mais estiver disponível.
Fonte: Mapa 2018
Bruna Benevides – Secretária de Articulação Política – ANTRA