O Mito da Disforia de gênero de Início Rápido e de Contágio Social mencionada por Alexandre Saadeh

Direitos e Política, Saúde

Réplica a Alexandre Saadeh a respeito de “disforia de gênero de início rápido” e “contágio social”

A ANTRA vem novamente a público, juntamente com as instituições que assinam este documento, fornecer uma réplica às respostas de Alexandre Saadeh à nossa nota de repúdio publicada em 7 de abril de 2019.

Se você está comemorando a decisão do STF sobre a (re)proibição da cura gay você deve igualmente se inteirar sobre como a mídia está divulgando estudos sobre “disforia de gênero de início rápido” e “contágio social”.

Devido a necessidade de apresentarmos evidências cientificas que fossem capazes de enfrentar a questão, construímos um documento denso, que faz uma analise aprofundada sobre o tema que vem sendo discutido, a fim de apresentar argumentos capazes de demonstrar os equívocos que foram defendidos pelo Dr. Alexandre Saadeh, Coordenador do Ambulatório de Transtorno de Identidade de Gênero e Orientação Sexual (AMTIGOS), e a fim de qualificar mais pessoas Trans e Cis-Aliadas a terem argumentos para um posicionamento eficaz contra essa visão tendenciosa que vem sendo apresentada e defendida publicamente por veículos de comunicação.

Leia, comente.

Para ler, baixe a nota completa aqui:

NOTA PUBLICA DR. Sadeeh – Replica

Crianças Trans ANTRA

 

NOTA PÚBLICA de Repúdio a entrevista do DR. Alexandre Saadeh, ao Portal Universa/UOL

Direitos e Política, Saúde

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NOTA PÚBLICA da ANTRA a respeito da entrevista do DR. Alexandre Saadeh, ao Portal Universa/UOL.

As instituições que assinam conjuntamente esta nota, vêm a público se posicionar sobre a matéria em lide, visto que a mesma faz uma série de apontamentos que consideramos nocivos e tendenciosos frente ao avanço das discussões sobre da autonomia das pessoas trans e a própria despatologização das identidades trans anunciada em junho de 2018 pela OMS e que vem sendo encampada pelo Conselho Federal de Psicologia, que publicou a Nota Técnica 01/2018, tratando especificamente como abordar o assunto.

Na entrevista, Saadeh alega existir “uma maior adesão às variações de gênero como fenômeno midiático” e que pessoas “confusas” e “instáveis” seriam, de alguma forma, “atraídas” ao que se supõe ser um “novo paradigma” decorrente de um “fenômeno mundial”. Como se a transgeneridade fosse algo passível de ser contagioso ou transmitido de uma pessoa para outra.

Tais informações e representações a respeito das identidades trans não se baseiam em nenhuma evidência científica consolidadas e estão completamente equivocadas. O que nos faz ter um olhar atento sob suas declarações, visto que o mesmo é coordenador do único serviço especializado no atendimento de crianças e adolescentes trans.

Ele alega que os jovens e crianças seriam de alguma forma “sugestionáveis” a se tornarem transgêneros (quando de alguma outra forma não seriam) em decorrência de alguma espécie de moda ou contágio social. Tais alegações acabam não apenas sendo imprecisas e cientificamente infundadas, mas também coniventes com a reafirmação de estigmas e incompreensões que precisam ser urgentemente superadas, tal como a noção, mesmo que vaga, de que as identidades trans constituem um perigo social a ser evitado. Afirma ainda que pessoas estariam transicionando para se tornarem celebridades midiáticas, ignorando todo contexto de violência que uma pessoa trans, ao externar publicamente sua condição, passa a estar exposta.

Inverte a lógica da luta por visibilidade, sugerindo que a representatividade trans nos diversos espaços sociais estaria “incentivando” que pessoas cisgêneras passassem a se identificar como trans – bem semelhante ao discurso fundamentalista que designa e sustenta a “ideologia de gênero” como algo maligno. Saadeh acaba abrindo mão de observar as singularidades de cada pessoa e que o fato das lutas trans estarem saindo da invisibilidade ter permitido com que mais pessoas pudessem ser quem são de verdade e passem reivindicar as suas reais existências, não mais sob um viés normativo-cisgênero.

Não existe nenhuma evidência científica capaz de sustentar a ideia de que as identidades trans sejam uma “moda” capaz de “confundir” pessoas suscetíveis. Pesquisas que especulam uma nova forma de ‘’disforia de gênero de surgimento rápido’’ (que atingiria particularmente meninas jovens) estão profundamente comprometidas em função de falhas metodológicas e vieses ideológicos. Tomemos como exemplo o artigo de Lisa Littman, “Rapid Onset of Gender Dysphoria in Adolescents and Young Adults: a Descriptive Study”, publicado no Journal of Adolescent Health. A autora sugere a existência de um novo “tipo” de disforia de gênero, de suposto “surgimento rápido”, decorrente do que a pesquisadora supõe ser uma espécie de contágio social alimentado por um fenômeno midiático, das redes sociais e pela pressão de pares/colegas. Zinnia Jones, Ashley Florence, Alexandre Baril, Julia Serano, Brynn Tannehill, apenas para citar alguns autores que perscrutaram este tipo de alegação, encontraram falhas metodológicas gritantes que enviesam por completo a pesquisa, tais como o fato de Littman se basear somente em relatos, obtidos em fóruns online, de pais que não aceitam as identidades trans de seus filhos.

Desta forma, a entrevista reafirma velhos estigmas e contribui para perpetuar tabus contra travestis, mulheres transexuais, homens trans e demais pessoas trans. Junto a isso, responsabilizando a visibilidade que a comunidade trans tem conquistado pelo que ele chama de “banalização da transexualidade” e reafirmando o olhar médico de que pessoas trans não teriam autonomia sobre suas escolhas, suas vivências ou que nossas existências seriam, vejam só, uma fraude. Ignorando os avanços das pesquisas e discussões sobre a autonomia e os efeitos positivos de um desenvolvimento livre de estigmas e preconceitos contra a condição trans, para justificar um olhar extremamente arcaico e patologizante e que mantém o poder do saber médico, tendo controle sobre a individualidade da pessoa.

Repudiamos esta abordagem, os problemas que ela apresenta e seus efeitos negativos. E reafirmamos nosso compromisso para o enfrentamento de posições tendenciosas que ferem o direito à livre expressão da individualidade humana, a autonomia e a luta pela despatologização das vivência trans.

Brasil, 08 de abril de 2019.

Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA)
Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersexos (ABGLT)
Articulação Brasileira de Jovens LGBT (ARTJOVEMLGBT)
Coletivo LGBT do MST
Coletivo Transtornar (Campinas/SP)
Fórum Nacional de Travestis e Transexuais Negros e Negras  (FONATRANS)
Grupo de Advogados pela Diversidade Sexual e de Gênero (GAdvS)
Instituto Brasileiro Trans de Educação (IBTE)
Rede Nacional de Operadores de Segurança Pública LGBTI (RENOSP-LGBTI+)
União Nacional LGBT (UNALGBT)

 

 Link da Matéria: http://twixar.me/k3bK

Baixe a nota em PDF: NOTA PUBLICA Repudio Entrevista DR. Sadeeh

Transfobia sai, Tifanny fica!

Direitos e Política, Saúde
Sobre a Tiffany e os PL para proibir pessoas trans no esporte que começam a surgir depois que foi exposta a Transfobia do Bernadinho:
 
Um ponto importante para iniciar a discussão: Se ela é elegível para o COI (que pesquisou, estudou e buscou especialistas no assunto para criar um protocolo para pessoas trans), FIVB e pela CBV, ela é elegível para qualquer coisa. Poucas esportistas chegam ao nível de alto rendimento e, por isso, há dificuldade em estudar e comprovar se o corpo que foi identificado como masculino leva vantagem, mesmo após a terapia hormonal.
 
O esporte se baseia na vantagem de alguém/alguma equipe sobre o outro/a. Na ginástica olímpica, por exemplo, é desvantagem para a atleta transexual ter peso e densidade óssea diferentes. No voleibol, também não existe vantagem em ser alto, pois mulheres cisgêneras também podem chegar perto dos 2m de altura. Ela nem é a atleta mais alta da equipe (Tifanny tem 1,94m, a central Thaísa, de 1,96m).
 
Segundo Regis Rezende, professor de educação física, fisiologista, pós-graduado em voleibol e especialista do caso Tifanny, os estudos mostram que em alguns esportes a performance de atletas submetidas à terapia hormonal é inclusive abaixo de mulheres cisgêneras.
 
Aliás, mulheres cis tem a vantagem de não ter que passar inúmeras cirurgias e ingestão de medicação de uso continuado para controlar os níveis hormonais. De não ter que sobrecarregar seus figados, rins, e sistema endocrinológico com remédios. O que, em tese, é na verdade uma desvantagem para a Tifanny. Terapia hormonal para mulheres trans normalmente envolve um bloqueador de testosterona e um suplemento de estrógeno.
 
Sem falar nos efeitos disso: perda de massa muscular, perda de massa óssea, perda de velocidade, impulso, força. Foi comprovado através de testes que Tifanny perdeu potência e explosão. Quer dizer: só perdas.
 
E como isso seria uma vantagem?
 
Devemos lembrar que nem todas as trans são grandes e fortes, assim como as pessoas que se identificam com seu gênero de nascimento têm composições corporais diferentes. Nem todas são guais ou tem o mesmo potencial que a Tifanny. Ai eu admito que ela seja um fenômeno – assim como outras jogadoras pelo mundo. Mas não necessariamente pode ser Trans ou por possíveis vantagens físicas.
 
Imagine um carro a gasolina, usando álcool? Vai ter mesmo desempenho? Mesmo com as mesmas peças? Então, pensem no carro como a Tiffany, a gasolina como a testosterona, o álcool como o estrogêneo e as peças como músculos e ossos. Como seria o funcionamento deste carro/corpo?
 
Vi em uma entrevista que o Bernadinho a chamou de homem por um toque/passada que ela executou e que ele seria usado no volei masculino. E talvez aí seja o ponto!
 
Ela usa a tática/técnica que aprendeu quando jogou na liga profissional masculina, talvez este seja seu diferencial. Ela não veio de uma equipe de base (deficiente) para a superliga. Ela já era da elite do volei. E talvez essa seja sua ”vantagem”, o que em nada ter a ver com sua formação física, mas que é uma questão técnica.
 
Talvez o foco deste discussão deveria então ser a técnica usada pela Tifanny – ou falta dela pelas outras jogadoras.
 
Dito isto, me pergunto: Porque então não se muda/adapta as técnicas ensinadas as mulheres?? Especialmente nas equipes de base? Aqui não se discute vantagens físicas que possam haver. Até então, os argumentos de vantagens fisiológicas/biológicas/físicas tem sido facilmente derrubados por estudos e pesquisas e pelo próprio COI.
 
O que nos levar a crer que, na síntese, essa discussão é um caso de transfobia motivada pela falta de informação e discussões sobre o tema.
 
A sociedade, agora, está começando a nos ver dentro dos espaços comuns, e isso tem causado toda essa polêmica. Porque aqueles locais não foram os que nos designaram. As pessoas não querem discutir, pensar, estudar, analisar dados científicos. Elas querem continuar tendo o direito de nos excluir.
 
Essa conclusão deverá ser feita incluindo pessoas trans no esporte, com elas jogando, em quadra. Não fora dela! Como provar se ela teria vantagem ou não, se ela ão estiver competindo e jogando ativamente junto das demais mulheres?
 
Então, vamos combinar uma coisa: Enquanto ninguém provar que ela tem a supostas vantagens que tanto falam, ela fica. Afinal, quem acusa é responsável pelo ônus da prova.
 
Transfobia sai, Tifanny fica!
 
Escrito por Bruna Benevides
Secretária de Articulação política da ANTRA
Tifanny

Travestis e Mulheres Trans tem risco de câncer de próstata?

Saúde

NOVEMBRO AZUL – Travestis e Mulheres Transexuais (inclusive redesignadas) também devem fazer o exame!

Estamos no mês da campanha de combate ao Câncer de Próstata e conscientização sobre a necessidade de se fazer exames para prevenir e fazer um diagnóstico precoce a fim de aumentar as chances de cura! 

A campanha Novembro Azul vai alertar a população para a realização do exame de toque e da dosagem sanguínea do PSA (Antígeno Prostático Específico) que podem indicar precocemente o aparecimento do tumor e evitar as consequências. 

Atualmente, a formação médica no Brasil não se aprofunda no tema da saúde das pessoas trans, ocasionando uma distância entre as pessoas trans e os profissionais de saúde. Nem sabemos exatamente a idade em que travestis e mulheres transexuais devem começar a pensar no assunto.

Devido a dificuldade de acesso a profissionais capacitados e falta de medicação na rede pública, nossa população ainda enfrenta o desafio da automedicação, o que tem trazido agravos na saúde de nossa população.

É muito importante estarmos atentas sobre o protocolo de prevenção e exames, e em caso de dúvida, buscar locais de acompanhamento para a realização de um acompanhamento especializado, a fim de minimizar e diagnosticar o câncer de mama a partir dos 40 anos de idade.

Há uma chance de cura, dependendo das características do câncer, de mais de 95%. São números expressivos, em se tratando da cura dessa doença.

**Fatores de risco:
>Idade (cerca de 62% dos casos são partir dos 65 anos)
>Histórico familiar
>Raça (maior incidência entre os negros)
>Alimentação inadequada, à base de gordura animal e deficiente em frutas, verduras, legumes e grãos
>Sedentarismo
>Obesidade

Campanhas de conscientização

Infelizmente, a falta de representatividade e invisibilidade nas campanhas de conscientização também faz com que pessoas trans não procurem ou não saibam da necessidade da prevenção, e que, com o uso de hormônios, pode causar problemas relacionados ao câncer de próstata.. Não debater significa não reconhecer esta questão, esta possibilidade.

Acesso básico à saúde

Travestis e Mulheres transexuais, que têm uma expectativa de vida de 35 anos, e sentem dificuldades em serem inseridas no atendimento básico de saúde, tanto pelo despreparo médico quanto por outros fatores, como o não respeito ao uso do nome social.

A falta de um atendimento especializado reflete a defasagem de estudos e políticas públicas para o setor.

Procure uma unidade de saúde e faça o exame. É preciso TOCAR nesse assunto! 😉

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Travestis e transexuais podem desenvolver câncer de mama?

Saúde

 Travestis e transexuais podem desenvolver câncer de mama? A resposta é sim.

Neste outubro rosa, a ANTRA apoia e incentiva a população de Travestis e Transexuais de participar das ações de conscientização e informação sobre o câncer de mama pelo Brasil.

O preconceito, a desinformação e o despreparo profissional na área de saúde estão entre as principais barreiras para a pesquisa, prevenção e tratamento do câncer de mama em Travestis, mulheres transexuais, homens trans e demais pessoas trans no Brasil.

Atualmente, a formação médica no Brasil não se aprofunda no tema da saúde das pessoas trans, ocasionando uma distância entre as pessoas trans e os profissionais de saúde.

Devido a dificuldade de acesso a profissionais capacitados e falta de medicação na rede pública, nossa população ainda enfrenta o desafio da automedicação, o que tem trazido agravos na saúde de nossa população.

É muito importante estarmos atentos e atentas sobre o protocolo de realização do autoexame e em caso de dúvida, buscar locais de acompanhamento para a realização de um acompanhamento especializado, a fim de minimizar e diagnosticar o câncer de mama.

Por outro lado, não existem dados sobre a prevalência no câncer de mama nas pessoas trans. Nem os agravos causados pela Terapia Hormonal a médio e longo prazo.

A prótese de silicone deve ser vista como um fator a mais para a realização periódica de exames para prevenção, pois este material tende a “camuflar”, “dificultar” a observação da existência de nódulos no seio, procedimento que deve ser realizado, preferencialmente, por médicos, mas que não dispensa a prática do auto-exame.

Entre as principais causas da doença, estão as alterações genéticas e hormonais, alimentação rica em gorduras, excesso de álcool ingerido, além do uso de anabolizantes ou de hormônios.

Campanhas de conscientização

Infelizmente, a falta de representatividade nas campanhas de conscientização também faz com que pessoas trans não procurem ou não saibam da necessidade da prevenção contra o câncer de mama, que é suscetível a pessoas de qualquer gênero. Não debater significa não reconhecer esta questão, esta possibilidade.

Acesso básico à saúde

Travestis e Mulheres transexuais, que têm uma expectativa de vida de 35 anos, e sentem dificuldades em serem inseridas no atendimento básico de saúde, tanto pelo despreparo médico quanto por outros fatores, como o não respeito ao uso do nome social.

O mesmo acontece com os homens trans, que são expostos a campanhas pensadas para corpos femininos, cisgeneros, que acabam por excluir os cuidados para com as pessoas que tem mama, e que, como uso de hormônios, pode causar problemas relacionados ao câncer de mama.

A falta de um atendimento especializado reflete a defasagem de estudos e políticas públicas para o setor.

Travestis e Transexuais que se amam, se cuidam! O câncer tem cura, a falta de conhecimento também!

Não deixe de ser cuidar. Um toque pode salvar sua vida!

 

Outubro rosa

Precisamos falar sobre o Suicídio das pessoas Trans!

Saúde

Suicídio é a segunda maior causa de morte entre jovens no mundo.

O tema é tabu, mas revela a necessidade de discutir e promover políticas públicas afirmativas voltadas para a população. Além de abordar a questão de saúde mental para a população de Travestis, Mulheres Transexuais e homens trans.

Existe um mito relacionado as questões de saúde mental das pessoas Trans, onde está posto que a Travestilidade ou Transexualidade em si, são fatores que causariam ideações suicidas, depressão, ansiedade ou outras questões de saúde mental. São ideias sob uma viés estigmatizante e patologizante, que ignoram os resultados positivos de uma transição em ambientes acolhedores, com apoio dos pais, amigos e familiares, acesso a tratamentos de saúde e acompanhamento nas questões de transição para quem deseja ou precisa, garantia de atendimento humanizado, respeito e uso de nome social e banheiro de acordo com a identidade de genero das pessoas trans nos espaços sociais, são alguns dos fatores que podem vir a garantir a qualidade e melhora da saúde mental de nossa população.

A maioria dos homens trans no Brasil, por exemplo, já passou por violência verbal, institucional e física. Grande parte do sofrimento psíquico vem da discriminação que existe nos equipamentos de saúde, na educação e na própria família.

O Brasil é o 8º país com o maior índice de suicídio no mundo (segundo a Organização Mundial de Saúde), a maioria dos casos ocorrem entre jovens de 15 a 29 anos, sobretudo entre pessoas do gênero feminino. É apontado como um grave problema de saúde pública. Mas entre a população trans ainda carecem dados, debates e pesquisas.

As pessoas LGBTs comumente são excluídas de vários grupos sociais, seja pelos próprios pais, famílias e ou pela sociedade, tendo constantemente sua orientação e/ou identidade questionadas. O bullying começa desde muito cedo e está relacionado a uma reação à quebra dos padrões sociais de gênero. Se uma criança tem pênis, é esperado um comportamento social masculino e vice-versa – caso fuja disso, ela vira motivo de chacota e pode ser agredida de diversas formas. A discriminação, notavelmente, gera uma série de efeitos negativos sobre a saúde mental do indivíduo e contribui mais tarde para o seu adoecimento.

Discriminação e hostilidade levam mais jovens Trans ao suicídio

Estima-se que 42% da população Trans já tentou suicidio. Recentemente, um relatório chamado “Transexualidades e Saúde Pública no Brasil”, do Núcleo de Direitos Humanos e Cidadania LGBT e do Departamento de Antropologia e Arqueologia, revelou que 85,7% dos homens trans já pensaram em suicídio ou tentaram cometer o ato. Mas não aprofundou sobre as motivações e outros dados sobre o tema.

Simplesmente não se pode negar tratamento a um grupo altamente estigmatizado que tem uma prevalência de 42 a 46% de tentativas de suicídio, comparado a 4,6% da população em geral.

(Texto continua após a imagem)

 Suicidio

 

A ONG Internacional National Gay and Lesbian Task Force aponta que 41% das pessoas trans já tentaram suicídio nos EUA em algum momento, contra 1,2% da população cisgênero (aquela que não é trans). Uma pesquisa do Instituto Williams de Los Angeles publicada em 2014 estimou que 40% das pessoas trans já tentou cometer suicídio. Já uma pesquisa da Universidade de Columbia nos Estados informa que o índice de suicídio é 5 vezes mais frequente entre LGBT.

Essa é uma questão muito cara e sensível para a população LGBTI em geral, em especial para a pessoas Trans e deve ser vista inicialmente pelo viés de saúde pública que, paralelo as questões de transfobia, devem ser prevenidos de forma continua eficaz.

Além de observarmos que há vários outros fatores podem levar ao suicídio de pessoas Trans como, por exemplo, o contexto social, econômico, disfunções químicas, e as próprias questões de saúde mental.

Onde apenas com um diálogo qualificado e aprofundado, com estudos e levantamentos feitos com pessoas da área da saúde mental diretamente envolvidas nas questões de saúde mental, poderemos pensar em estratégias para minimizar os índices que são alarmantes em nossa população.

Mitos sobre arrependimento pós Cirurgias de Redesignação Sexual levam ao suicídio.

É comum vermos pessoas apresentando indices de arrependimento de pessoas que passaram pela cirurgia de redesignação sexual (CRS) para negar o acesso as CRS elegendo supostos arrependimentos, enquanto a ciência demonstra que esse tipo de arrependimento é quase inexistente.

O arrependimento de se fazer cirurgias, na verdade, é muito raro. Literalmente todos os estudos modernos estimam que o nível de arrependimento está abaixo de 4%, e a maioria estima que esteja entre 1 e 2% (Cohen-Kettenis & Pfafflin 2003, Kuiper & Cohen-Kettenis 1998, Pfafflin & Junge 1998, Smith 2005,Dhejne 2014). Em alguns outros estudos longitudinais recentes, nenhum dos participantes demonstrou arrependimento por ter feito a transição médica (Krege et al. 2001, De Cuypere et al.2006).

Conforme as técnicas cirúrgicas se aprimoram, o risco de complicações de longo prazo caíram para menos de 1% em pacientes homem-para-mulher (Perovic 2000, Jarolím 2009, Wu 2009).

Essas descobertas fazem sentido dadas as descobertas consistentes de que acesso a cuidados médicos melhoram a qualidade de vida em vários eixos, inclusive o funcionamento sexual, autoestima, imagem corporal, ajuste socioeconômico, vida familiar, relacionamentos, status psicológico e satisfação de vida em geral. Isso é endossado por vários estudos (Murad 2010,De Cuypere 2006, Kuiper 1988, Gorton 2011, Clements-Nolle 2006) que também demonstram consistentemente que o acesso à CCS reduz a taxa de suicídio por um fator de 3 a 6 (entre 67% e 84%).

Considerando-se o nível de dano possível quando se nega atenção médica, e considerando-se como é raro o arrependimento, negar atenção médica a todos por causa das exceções não faz qualquer sentido lógico ou ético. Em outras palavras, você causaria mais danos a mais pessoas ao negar o acesso a todos que ao manter o sistema que existe hoje, ou mesmo expandir esse acesso. Todas as principais organizações médica apoiam o acesso aos cuidados relacionados à transição e consideram que isso é medicamente necessário por uma razão: os indícios fornecidos pela comunidade científica confirmam isso.

Prevenção

Para a OMS, pouco é feito na área de prevenção. Pesquisadores da Universidade de Oxford, Inglaterra e da Universidade Stirling, na Escócia, dizem que mais pesquisas são necessárias para se compreender quais são os fatores de risco e melhorar a prevenção.

Estima-se que no Brasil, ocorram 24 suicídios por dia. Por outro lado, o número de tentativas é até 20 vezes maior que isso. “O suicídio é uma epidemia silenciosa.

É preciso exigir não somente políticas públicas, mas a criminalização da LGBTfobia e a conscientização constante sobre a questão de gênero. Afinal, enquanto tivermos grupos exigindo por exemplo o fim da “ideologia de gênero nas escolas” ou seja, o debate sobre a realidade dos LGBTs, os grupos marginalizados pelo preconceito continuarão achando que estão sozinhos no mundo e adoecerão, sejam eles adultos ou jovens.

Por conta da transfobia social e da invisibilização de suas identidades, a população trans em geral carece de dados básicos, como a quantidade de pessoas trans existentes. Isso dificulta que políticas públicas e afirmativas sejam pensadas e criadas especificamente para atender as necessidades desta população. É por esse motivo que é importante estimular, se atentar e divulgar pesquisas e iniciativas voltadas para a população Trans.

Embora sejam poucas as políticas públicas, algumas delas ainda podem ser acessadas, como é o caso do atendimento psicológico social que muitas universidades fazem à população com menos recursos financeiros. Em alguns Estados há também os Centros de Referência/Cidadania LGBT e as ONGs LGBTs onde muitas vezes há atendimento gratuito de psicólogas e assistentes sociais. Há ainda os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e os Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) que fazem parte do Sistema Único de Saúde. “Quando procurar atendimento psicológico particular, é importante que as pessoas trans se certifiquem de que a(o) psicóloga(o) tenha sensibilidade e se sinta confortável com a temática das expressões e identidades de gênero. A patologização da travestilidade e da  transexualidade foi inclusive proibida pelo Conselho Federal de Psicologia em resolução recente (Resolução CFP 001-2018)“, é o que lembra Maiara Fafini, psicóloga e travesti.

Outro recurso interessante que há em outros países e existe também no Brasil é o Centro de Valorização da Vida (CVV), entidade sem fins lucrativos reconhecida como de Utilidade Pública Federal, que faz atendimento 24 horas por dia pelo disque 188. Seus voluntários são orientados para tentar dissuadir pessoas de pensamentos suicidas e auxiliá-las na busca de novo sentido e vontade de viver.

Ao contrário do que se pensa, Falar ainda é a melhor solução.
O Suicídio precisa ser debatido. No silêncio, ele cresce.
Bruna Benevides
Sec. de Articulação Política da ANTRA

Referências: